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Em rede, conflito sempre chega depois

O instinto que lia o clima de uma unidade para de alcançar quando existem cinco. O conflito continua acontecendo, só que a notícia chega pelo pedido de demissão, e quase sempre pelo terceiro.

Em rede, conflito sempre chega depois

Uma das suas unidades passa duas semanas com o ambiente pesado e ninguém te avisa. O gerente sabe, mas tenta resolver sozinho, porque avisar você, na cabeça dele, é admitir que falhou.

Você só descobre quando três funcionários bons pedem demissão na mesma semana. E mesmo aí, o primeiro pedido raramente conta a história inteira: ela vem em camadas, do terceiro em diante.

O instinto que funcionava em um lugar só não cobre cinco

Teve um momento, lá no começo, em que isso era difícil de acontecer. O negócio era um lugar só, você estava lá, sentia o ambiente mudar antes de qualquer pessoa abrir a boca. Com duas, três, cinco unidades, esse instinto para de funcionar. O que ele captava sozinho passa por dois, três, quatro intermediários antes de virar informação na sua mesa, e cada um no caminho filtra alguma coisa.

E as mudanças vão se acumulando. Cada gerente cria uma minicultura própria, e aquele padrão de atendimento que você desenhou na primeira unidade fica mais rígido com um, mais frouxo com outro. Funcionário transferido vira quase um estranho na equipe nova. Cliente fiel de uma unidade não se acha do mesmo jeito quando precisa ir em outra. Quando a tensão estoura em alguma delas, você está longe demais pra sentir e sem contexto pra entender o que está acontecendo ali.

Ler o ambiente em poucos minutos ao entrar numa unidade continua sendo uma vantagem de quem cresceu junto com o negócio. Só que é uma unidade. O instinto que pegava as coisas no ar quando você atendia sozinho não cobre cinco lugares ao mesmo tempo.

O conflito viaja junto com o funcionário transferido

Tem uma coisa específica de rede que ninguém comenta nos cursos de gestão: funcionário transferido leva o conflito junto. Funciona mais ou menos assim. Alguém pede pra mudar de unidade, com uma justificativa razoável demais pra levantar suspeita, algo como ficar mais perto de casa ou testar outro horário. Quem autoriza muitas vezes nem sabia que essa pessoa estava no meio de um atrito na unidade de origem.

Ela chega na nova com a história já montada, com mágoa guardada, e em uns três meses está reproduzindo o mesmo padrão na equipe nova. A unidade que recebeu começa a deteriorar do mesmo jeito que a anterior, e a culpa parece ser do ambiente, quando o problema chegou junto com a pessoa.

A saída aqui é processo, não palpite. Toda transferência interna deveria passar por uma checagem básica antes da decisão. Por que essa pessoa quer mudar. Há quanto tempo ela pede. Como está o desempenho dela com a equipe atual. Se o gerente da unidade de origem concorda ou tem alguma ressalva. Tudo registrado em algum lugar, um documento compartilhado, uma planilha, qualquer coisa que quem decide consiga abrir antes de bater o martelo.

Parece burocracia. É uma burocracia que custa quinze minutos por transferência e evita perder três funcionários bons numa unidade onde ninguém fez essas perguntas a tempo.

O gerente tem incentivo pra segurar o que você precisa saber

Esse é o tipo de conflito mais perigoso, e tem uma razão pra isso. O gerente que você colocou vive um conflito de interesses que ninguém desenhou de propósito. Ele precisa mostrar que está dando conta, então tende a segurar problema. Ao mesmo tempo quer proteger a equipe, então tende a segurar atrito interno. As duas coisas chegam no mesmo lugar: silêncio.

Quem trata bem isso costuma ter dois movimentos rodando ao mesmo tempo.

O primeiro é abrir um canal direto, onde o funcionário fala com você sem passar pelo gerente. Pode ser um email só seu, um formulário anônimo, um número de WhatsApp que só você lê. O formato importa menos do que existir uma saída pra quando o problema é justamente o gerente.

Funcionário sem onde falar não fala. Some, sem aviso.

O segundo movimento é uma conversa quinzenal de vinte minutos com cada gerente, sempre com a mesma pergunta abrindo.

Pergunta

“O que está incomodando alguém da equipe agora?”

“Tá tudo bem” é resposta automática, sai antes de a pessoa pensar. A pergunta certa obriga o gerente a parar e procurar, e quase sempre tem alguma coisa pra trazer, mesmo que pequena. Com o tempo isso muda o incentivo dele: para de achar que proteger a equipe significa esconder informação e passa a entender que o silêncio é o que gera problema com você.

Cada nível resolve o que cabe a ele

Conflito entre funcionários da mesma unidade é problema do gerente daquela unidade. O dono entra quando o conflito é entre dois gerentes, ou entre unidades diferentes. Misturar esses níveis sai caro dos dois lados, e quase todo dono que cresceu a partir do operacional escorrega nesse ponto pelo menos uma vez.

Quando o dono se mete em conflito de funcionário, mina a autoridade do gerente sem perceber. O gerente fica sem condição de mediar nada, porque a equipe entende que dá pra passar por cima dele e falar direto com você. Em pouco tempo tudo é direcionado pra sua mesa, e o dia vira resolver coisa que deveria parar no nível do gerente.

O caminho oposto também tem custo. Quando o conflito é entre gerentes e o dono não entra, o atrito contamina as duas equipes. Funcionário vê que ninguém vai resolver, gerente passa a esconder informação do colega, e o que era pessoal vira problema operacional que custa cliente.

A regra é simples de dizer e chata de aplicar: cada nível cuida do que é dele. Quando alguém pula o nível, você devolve a conversa pra quem cabe, com firmeza e sem culpar a pessoa por ter tentado escalar. “Isso é com o gerente da sua unidade. Fala com ele primeiro. Se depois ainda achar que precisa escalar, volta aqui.” Repete três, quatro vezes, e a estrutura inteira aprende.

O padrão aparece nos números antes de aparecer na conversa

Reporte de gerente conta como informação, claro, só que chega tarde quase sempre. Numa rede grande, “quase sempre” costuma significar tarde demais. O que chega cedo está nos números, e pouca gente olha os indicadores certos pra detectar conflito antes dele virar crise.

Alguns sinais aparecem antes de qualquer reclamação cair na sua mesa: turnover de uma unidade subindo enquanto nas outras cai, retenção de cliente despencando só numa filial, a agenda de um profissional específico encolhendo sem motivo, cancelamento de última hora aumentando.

Um sinal isolado pode ser ruído. Três ou quatro juntos, na mesma unidade e em pouco tempo, é sinal forte.

Numa rede grande você não acompanha tudo o tempo todo, porque não dá. Define o que é normal em cada métrica e investiga quando algo foge disso. O dia a dia roda sem você, e a sua atenção entra em cena quando os números avisam.

O AgendaHub mantém agendamento, cancelamento e a agenda de cada profissional num lugar só, unidade por unidade, pra que essa comparação não dependa do que cada gerente escolhe contar. Quando você olha as unidades lado a lado, o padrão aparece sozinho, e uma que foge das outras em três ou mais métricas ao mesmo tempo costuma ter alguma coisa acontecendo ali que vale olhar antes de virar pedido de demissão coletivo.

Não dá pra estar em todo lugar, mas dá pra ver de longe

Volta naquela unidade do começo, com o ambiente pesado nas duas semanas anteriores. Em vez de pensar em como descobrir quando alguém finalmente vai falar, a pergunta que importa é o que nos números daquelas duas semanas você deixou de olhar.

Provavelmente o turnover começou a subir antes que alguém notasse. A taxa de retorno de cliente pode ter caído três pontos enquanto as outras unidades ficaram estáveis. Talvez um profissional específico tenha começado a acumular cancelamento sem que ninguém olhasse com atenção.

Sinal antes da crise existe quase sempre. Quem aprende a olhar para de descobrir as coisas no quarto pedido de demissão.

Referências

  • Albert Hirschman

    Albert O. Hirschman (1915–2012)

    Economista alemão-americano, professor em Harvard entre 1964 e 1974 e depois no Institute for Advanced Study. Em Exit, Voice, and Loyalty (Harvard University Press, 1970) mostrou que quem está insatisfeito numa organização reage de dois jeitos: falar ou ir embora. A lealdade retarda a saída.

Fim

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